
1° Bastidores (2001)
Cauby Peixoto: 50 Anos da Voz e do Mito
Record 2001
BIBLIOTECA
Não deve ser fácil biografar Cauby Peixoto. Senhor de uma das maiores vozes da música brasileira, Cauby Peixoto não tem, parece-me, uma discografia à altura dessa fama. O problema foi sempre o repertório que o cantor privilegiou e a forma idiossincrática do seu canto, digamos, pouco disciplinada, que não melhorou com o tempo. Ao longo do livro de Rodrigo Faour, somam-se os elogios dos colegas e repete-se a comparação com Frank Sinatra, que me parece absurda (Sinatra foi muitas vezes perfeito). Faour sai-se muito bem na forma como aborda a vida e a obra de Cauby Peixoto. Contextualiza perfeitamente os períodos desiguais da sua carreira, chamando a atenção para o estatuto do cantor decorrente das mudanças no mercado e no gosto do público. Narra muito bem a relação de Cauby e do seu agente-criador Di Veras, uma personagem quase tão fascinante quanto a do cantor. Os anos em que gravou para a Columbia (anos 50), com as viagens aos EUA e o fanatismo das fãs, é a melhor fase do cantor. As poucas gravações que conheço dessa fase são soberbas; aí sim, justificam-se todos os elogios dos colegas, muitos deles marcados na adolescência pelo cantor de Conceição. A partir dos anos 60 atravessa um deserto de público e de crítica. O seu público mais fiel, essencialmente feminino, nunca o abandonou e ele foi também fiel à versatilidade que demonstrou desde o início da carreira: cantou sempre o que quis e lhe apeteceu, cantou em várias línguas e abusou de um repertório romântico que não raras vezes resvalou para o kitsch. Mas Faour tem razão quando afirma que Cauby conseguiu sobreviver numa época cujas formas de cantar preferidas (bossa nova, rock/pop) voltavam costas ao estilo dos cantores do rádio. Nos anos 60 esse estilo ficou de repente velho e até alvo de troça. Elizete Cardoso foi talvez a única desses cantores que manteve o seu estatuto inalterável (mas ela nunca foi popular como Cauby ou Angela Maria). Subiu o morro (cantou magnificamente samba) e ao mesmo tempo cantou sempre a nata dos clássicos brasileiros. Cauby mudou demasiado de gravadora, cantava em qualquer lugar e descuidou o repertório. No início dos anos 80 viveu um renascimento artístico promovido pela indústria musical e confirmado pelos seus colegas artistas. Um livro excelente. Leitura no verão de 2016: 4/5